Bisol: "blindar" o elenco!

 

Foto Reprodução Youtube


Todos nós já estivemos lá: encurralados, com uma tarefa de alta pressão pela frente, onde o fracasso parece uma possibilidade real e iminente. É nesse momento que o caráter é testado e a verdadeira liderança se revela, não pela ausência do medo, mas pela forma como ele é gerenciado.

No futebol, esse cenário é amplificado ao extremo. O recente empate do Internacional contra o Santos é um exemplo perfeito. Diante de mais de 37 mil torcedores no Beira-Rio, o time cedeu um empate por 1 a 1, permanecendo perigosamente a apenas três pontos da zona de rebaixamento, com três rodadas decisivas pela frente. A situação é um estudo de caso sobre como um líder se comporta quando está "contra a parede".

Contrariando o esperado, as declarações do vice de futebol, José Olavo Bisol, após a partida, não foram de caça às bruxas ou desespero. Pelo contrário, revelaram um manual de gerenciamento de crise com estratégias de liderança surpreendentes, cujas lições vão muito além do esporte.

A primeira promessa de Bisol foi a de "blindar" o elenco. Este conceito, muitas vezes mal interpretado como uma tentativa de esconder problemas, é, na verdade, uma estratégia deliberada para criar um ambiente protegido. O objetivo é permitir que jogadores e comissão técnica possam focar exclusivamente nos próximos desafios, isolados do ruído e da pressão externa. Em um ambiente de altíssima visibilidade, onde a crítica implacável pode destruir a moral de um grupo já fragilizado, essa proteção funciona como um escudo emocional indispensável.

"A blindagem vem nesse aspecto. Até porque são esses jogadores e essa comissão técnica que irão até o final."

Em qualquer organização enfrentando uma crise, o papel do líder é o mesmo: proteger a equipe do caos externo para que ela possa executar sua função vital. Este escudo emocional não é um fim em si, mas uma condição necessária para restaurar o ativo mais crítico da equipe, como Bisol identificou a seguir.

A razão para esse foco intenso na proteção ficou clara no diagnóstico central de Bisol: a principal batalha da equipe não era tática, mas mental. A equipe, que jogou bem na primeira etapa, decaiu visivelmente sob o peso da pressão. Isso nos ensina que, em situações de crise aguda, o maior desafio de um líder não é necessariamente corrigir a técnica, mas sim reconstruir a confiança do grupo, o ativo mais valioso e, ao mesmo tempo, o mais frágil.

"Para mim é muito claro que o time precisa de confiança. Isso ficou evidente no jogo de hoje."

Uma das decisões mais estratégicas da diretoria, expressa por Bisol, foi a de adiar qualquer análise crítica aprofundada sobre os erros cometidos ao longo da temporada. Em um momento que exige coesão máxima para a sobrevivência, iniciar um processo de "prestação de contas" seria o mesmo que fomentar a desunião e a busca por culpados. Essa "trégua interna" é uma tática clássica e essencial no gerenciamento de crises, direcionando toda a energia e todos os recursos para o objetivo imediato e inegociável.

"Vamos ter a oportunidade de fazer as críticas e a prestação de contas do que aconteceu na temporada. Mas agora não é a hora. Agora, precisamos do apoio."

O dirigente começou sua fala admitindo o sentimento duplo de "frustração e indignação", validando a emoção que tomava conta de todos no estádio. Porém, seu movimento seguinte foi contraintuitivo. Em vez de se lamentar, sua primeira ação pública foi agradecer o apoio massivo dos mais de 37 mil torcedores e, em seguida, pedir ainda mais união. Este ato é uma poderosa ferramenta de liderança: ele reconhece e legitima o sentimento da torcida e, ao mesmo tempo, a convoca para continuar sendo parte ativa da solução, reforçando o vínculo fundamental entre time e apoiadores quando ele é mais necessário.

As lições extraídas das palavras de José Olavo Bisol mostram que a reta final do campeonato para o Inter será um teste tanto de habilidade técnica quanto, e talvez principalmente, de força mental e liderança. O foco em proteger o grupo, reconstruir a confiança, adiar o julgamento e convocar o apoio coletivo compõe uma estratégia clara para navegar a tempestade.

Fica a pergunta: em uma batalha onde a mente parece ser o campo decisivo, será que a aposta na blindagem emocional e na união será o suficiente para garantir a permanência?

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