Entrevista - Eu escutei uma frase: o Inter está na Série B. Mas não é time de Série B. O clube é gigante Danilo

Fonte: http://globoesporte.globo.com/rs/futebol/times/internacional

Dor, lágrimas e até diploma: a história de luta do Danilo por trás das luvas 

Em entrevista exclusiva, goleiro do Inter lembra série de cirurgias quando jovens e revisita formação em Administração, além de traçar planos para a carreira

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O torcedor colorado fita um ano de 2016 para se esquecer, sacramentado com o primeiro rebaixamento da história do Inter, e encontra em Danilo Fernandes um raro e isolado motivo para sorrir. O goleiro concilia o desafio de devolver o Inter à elite com a melhor fase da carreira, que o levou à Seleção mesmo com a dolorida queda à Série B. Por trás da vasta barba e da segurança esbanjada sob as traves, porém, o arqueiro guarda uma trajetória peculiar, de superação pura, que o faz reviver as lágrimas de sua adolescência numa tarde chuvosa de 2017 (confira acima).

O ano era 2004. O então jovem Danilo volta para casa, em Guarulhos, na Grande São Paulo, aos prantos, diante da frieza do diagnóstico médico. Do doutor, o garoto ouvira que tinha fraturas nos dois punhos e recebera a sentença de que estava proibido de jogar futebol "para ontem". Entre o choro e o colo da mãe, o menino acreditava ter chegado a um fim precoce da carreira. Hoje aos 28 anos, volta a desabar e a ficar sem palavras ao lembrar que sua de vontade prevaleceu diante de quatro cirurgias, dois anos alijado dos gramados e outros seis, convivendo com dores nos treinamentos.
– Quando eu recebi a notícia de que tinha que ir para a mesa de cirurgia o mais rápido possível... Você vê o sofrimento de sua mãe, de seu pai... Foi difícil. Eu chorei. Fui para a casa chorando. Pensei: acabou agora. Eu não sei de onde veio essa força, que me fez continuar. Eu operei com 16 anos. Fiquei dois anos parado. Eu queria provar para mim mesmo que conseguia jogar. Se eu conseguiria me tornar o que sou hoje, não dependia de mim, talvez eu não servisse para ser goleiro. Eu tive que provar para mim mesmo que conseguia. E agora é história para contar – recorda Danilo, entre pausas para enxugar as lágrimas.
Internacional Inter Danilo Fernandes Inter (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)Danilo Fernandes abriu o coração em entrevista exclusiva (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)

O breve momento de emoção em 40 minutos de conversa contrasta com a sobriedade do ambiente, circundado de livros e pinturas que resgatam a tradição gaúcha e, claro, a história do Inter. Danilo recebe a reportagem do GloboEsporte.com na biblioteca da Fundação de Educação e Cultura do Inter (Feci), no segundo andar do ginásio Gigantinho. Um recinto até então inédito para o goleiro e que logo desperta um outro capítulo de sua trajetória.
Eu operei com 16 anos. Fiquei dois anos parado. Eu queria provar para mim mesmo que conseguia jogar. Se eu conseguiria me tornar o que sou hoje, não dependia de mim, talvez eu não servisse para ser goleiro. Eu tive que provar para mim mesmo que conseguia. E agora é história para contar
Danilo Fernandes
O camisa 1 narra os episódios de sua vida com eloquência e minúcia de detalhes, fruto, talvez, da instrução que destoa da imensa maioria dos boleiros por aí. O arqueiro está no seleto rol de jogadores da Série A que têm curso superior completo. E graças, em parte, às incertezas típicas de sua posição, que reserva chances raras a garotos recém-promovidos. Em 2008, Danilo aproveitou o embalo do primo para prestar vestibular para Administração. 
E não só aprovou, com cumpriu à risca o currículo do curso, conciliado com os treinamentos diários, até a formatura, em 2011, ano das primeiras aparições no Corinthians. O diploma veio com dedicação, claro, mas também com algumas "escapadas" nas aulas de sexta-feira. O barulho dos colegas nos bares servia de convite sedutor para desopilar dos encargos em sala de aula e nos gramados.
– O pessoal falou que eu ia subir para o profissional, e eu fiquei meio assim. Meu primo me empolgou, nós prestamos o vestibular e passamos. Eu consegui conciliar os estudos com o futebol. Era quarto goleiro. Só treinava. Fui fazer meu primeiro jogo em 2011, quando ia me formar. Aí, só tinha tempo para ir para a faculdade na segunda e na sexta-feira. Aí, sexta o pessoal só ficava no bar (risos). Às vezes, eu tinha que dar uma passada para fazer a social. Tinha que extravasar um pouco. Mas sem encher a cara – se diverte.
TUDO, GRAÇAS AO VIDEOGAME
Garoto Danilo Fernandes no início pelo Corinthians  (Foto: Arquivo Pessoal )Garoto Danilo Fernandes no início pelo Corinthians (Foto: Arquivo Pessoal )
Danilo iniciou as lidas com a bola desde cedo. Aos seis anos, o menino foi inscrito na escolinha do Carioca, em Guarulhos, junto à trupe de primos. Como todo o pupilo, partilhava do sonho de ser atacante, demovido logo pelo primeiro treinador, responsável por recuá-lo à meta. A atração foi imediata. Já aos oito anos, Danilo chamara atenção de um olheiro, que o convidou para treinar futsal no Corinthians.
A família corintiana ficou em polvorosa... até o "não" de Danilo. O menino bateu o pé. Queria apenas se divertir com os amigos na rua, mas cedeu ao desejo do pai, José, com um proposta: aceitaria o convite do Timão se ganhasse um Super Nintendo, videogame da moda à época. Sem saber até hoje como, a "chantagem" dera certo. Quatro dias mais tarde, seu pedido foi atendido.
– Você via os amigos brincando na rua, e você indo jogar futebol, com compromisso, com horário. Eu falei: "Mãe! Quero brincar, ficar na rua". Eu lembro até hoje. O Super Nintendo era o videogame da época, e meu pai, família de corintianos, não tinha jeito. Eu falei: "então tá, pai. Só vou para o Corinthians se você me der o Super Nintendo". Fiz chantagem, né? Eu não sei de onde ele tirou dinheiro, o que ele fez, mas em três, quatro dias, estava na minha frente. A chantagem virou obrigação. Eu devo minha vida ao Super Nintendo – afirma.
Internacional Inter Danilo Fernandes Inter (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)Danilo recebeu a reportagem em uma biblioteca, no Inter (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)
O esforço do pai logo dera lugar à persistência e à criatividade da mãe. Do futsal, Danilo foi convidado a integrar o time de futebol do Timão, mas os horários coincidiam com as aulas. Coube a dona Maria intervir com a "invenção" de sessões de fisioterapia, que o liberaram para os treinamentos. Restava, então, solucionar um problema de logística. E lá estava a mãe coruja, disposta a aprender a dirigir para conduzir o filho de Guarulhos ao Parque São Jorge.
ASCENSÃO METEÓRICA, QUEDA E DESAFIO
Sem vingar no Timão, Danilo deixou o Parque São Jorge após duas décadas para defender o Sport, em mais um teste a sua paciência, em 2015. No Recife, o arqueiro fazia sombra a Magrão, até que uma lesão tirou de combate o ídolo da torcida rubro-negra por três meses. O infortúnio do amigo abriu a brecha que o goleiro precisava para deslanchar.
Se for para jogar com dedo quebrado, vou jogar. Vou dar a vida dentro de campo. Eu escutei uma frase: o Inter está na Série B. Mas não é time de Série B. O clube é gigante
Danilo
Em pouco mais de um ano e meio, o goleiro saltou da reserva no Leão a idolatria no Inter, seguido de uma inédita convocação à Seleção, para o amistoso contra a Colômbia, no começo de ano. O chamado de Tite serve como um prêmio aos milagres do camisa 1 em apenas 33 partidas pelo Colorado em um 2016 que também fora atrapalhado por algumas lesões. Problemas que não o impediram de encerrar a temporada como um raro eximido de culpa na campanha até a primeira queda da história do inter no Brasileirão.
E não apenas pelo protagonismo para guardar a meta e até postergar o rebaixamento à última rodada do Nacional. A queda à Série B é uma mácula carregada sem vergonha por Danilo. Autêntico, o goleiro pôs a cara à tapa, já em 2016, entre declarações fortes e até atuação com o nariz quebrado, num espírito de entrega que se mantém em 2017. O camisa 1 abraça o desafio de devolver o Inter à elite do Brasileirão como o maior de sua carreira, ao passo que ainda tenta digerir e virar a página das sequelas do rebaixamento junto aos companheiros.
danilo fernandes pênalti fluminense internacional (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)Danilo pegou até pênalti na última rodada, contra o Fluminense (Foto: André Durão / GloboEsporte.com)

MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA

> Maior desafio na Série B
Com certeza. Eu não me arrependo de nada. Faria tudo de novo. Todo mundo me falou: "não vai, não vai, não vai". Cheguei com o pensamento de marcar meu nome, mas não desse jeito. Saíram piadinhas, e eu falei: "Ficamos marcados, mas daqui a alguns anos, vocês vão ver a glória". A gente é muito grande. Nosso time é muito grande. Está passando por um momento que acontece com todos os clubes, então pode ter certeza que vou... Apagar, não. Porque meu nome vai estar marcado. Como o primeiro time a ser rebaixado. Eu falo de cabeça erguida. Não tenho vergonha. Dei meu melhor, todo mundo fez o que pôde, mas aconteceu. Vou ter meu nome marcado com títulos aqui. Tenho certeza disso.
Daqui a alguns anos, vocês vão ver a glória. Nosso time é muito grande. Meu nome vai estar marcado como o primeiro time a ser rebaixado. Eu falo de cabeça erguida. Não tenho vergonha. Dei meu melhor, mas aconteceu. Vou ter meu nome marcado com títulos aqui. Eu tenho certeza
Autor
 > Ambições para a carreira
A primeira coisa que vem, assim, é ajudar o Inter. Tenho que estar muito bem aqui para ter uma chance na Seleção novamente. Vou trabalhar firme. Vou dar a vida dentro de campo. Se for pra jogar com nariz quebrado, vou jogar. Dedo quebrado, vou jogar. Vou fazer de tudo para estar na Seleção novamente e colocar o Inter no seu devido lugar. Eu escutei uma frase. O Inter está na Série B, mas não é time de Série B. Nós não somos. O clube é  gigante. Não faço sozinho, mas vamos colocar o Inter no seu devido lugar e fazer de tudo para ter outras convocações. E a Copa do Mundo é um sonho, sim.

> Experiência no Corinthians como aprendizado na Série B

São dois times gigantes do futebol brasileiro. Serve de aprendizado, com o próprio Antônio Carlos. Ele estava lá como diretor. Ele sabe da importância que esse ano tem. Passei por dificuldades. Passei por muita coisa que serve de bagagem para saber lidar com as situações que aparecem. A gente não queria que chegasse a esse ponto. Aconteceu. Ponto. Não tem mais o que fazer. Vamos esquecer o que foi feito no ano passado. Não vai apagar, mas serve de aprendizado para não cometer os mesmos erros.
> Idolatria imediata
Eu fui muito bem recebido por todos, desde quando surgiram os boatos de que viria para cá. Mas não esperava o reconhecimento tão grande, ainda mais em um ano como o nosso, com rebaixamento e eu com apenas 33 partidas. É pouco. Até me assusta um pouco esse carinho. Não sei se é pelo que eu falava, que já tinha falado... O carinho, sem duvida, me assustou um pouco. Principalmente pelo ano que foi. Mas tenho que conseguir o resultado dentro de campo e dar minha vida como faço em cada jogo. Vou fazer de tudo para retribuir o carinho que estão tendo por mim.
Até o final de 2014, ninguém sabia quem eu era. Quem era o Danilo. Ninguém sabia. Comecei a jogar no meio de 2015. Jogando um ano e pouco e todo mundo falando de Seleção. Meu pensamento, com a Copa, é me manter lá
Danilo
 > Frases polêmicasTenho esse defeito e qualidade. Não fico em cima do muro. Eu falo mesmo. Se está bom, está bom. Se não está bom, não está bom. Dava até medo de mim mesmo quando via o microfone na frente. Não vou mudar meu jeito. Vou continuar falando. Não consigo mentir. 
> Início do ano irregular do Inter
É difícil, com um mês de trabalho, conseguir mudar tudo. Porque a gente ainda tem sequelas do ano passado. A gente quer limpar o mais rápido possível. O grupo 80% ainda é o mesmo. Tem bastante gente do ano passado, mas estamos no caminho. A cobrança é nossa, do dia a dia, em cada jogo. O torcedor vai cobrar a gente sabe. Mas só a gente pode mudar a história. Só a gente tem que mudar isso. Tem que entrar no campo tranquilo, tem que entrar. A gente sabe o que tem que fazer. Ninguém desaprendeu. Todo mundo sabe jogar futebol. Tem horas que a perna dá uma inchada. Tem gente que sente. Isso é normal. E esse ano tem tudo para dar certo. Temos que ter um pouco de paciência. O time vai encaixar.

> Ascensão na carreira
Então, eu já comentei com minha esposa. Até o final de 2014, ninguém sabia quem eu era. Quem era o Danilo. Ninguém sabia. Então, fui para o Sport em 2015 e aconteceu a lesão do Magrão. Tive oportunidade de entrar no terceiro jogo do Brasileiro e não saí mais. O cara é um ícone. O Magrão é um cara sensacional. É difícil ver um jogador assim. Graças a Deus, deu tudo certo. E agora saí para outro grande clube, que estou hoje. Foi muito bacana. E a projeção muito rápida. Comecei a jogar no meio de 2015. Jogando um ano e pouco e todo mundo falando de Seleção. Graças a Deus, veio o reconhecimento; O mais difícil é ser convocado novamente e me manter lá. É meu pensamento com a Copa do Mundo chegando, quero me manter lá.
Internacional Inter Danilo Fernandes (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)Danilo se emociona em entrevista (Foto: Eduardo Deconto/GloboEsporte.com)fonte: http://globoesporte.globo.com/rs/futebol/times/internacional

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