O 1º ano da minha filha como torcedora efetiva do Inter

O 1º ano da minha filha como torcedora efetiva do Inter

Talvez tu não saiba, mas 3 de dezembro marca o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência, promovido pela ONU desde 1998 com o intuito de conscientizar a todos acerca dos direitos das PCDs. Aproveitando a data, temos no Blog do Povo uma participação especialíssima do Edison Ferreira, pai da guerreira Gabriela, cadeirante e torcedora do Colorado. Boa leitura!

Edison Ferreira
Edison Ferreira
"2015 foi o primeiro ano da minha filha como torcedora efetiva do Inter"

Contextualizando: acho que todos sabem a polêmica que ainda vive o novo Beira-Rio por conta do planejamento das obras de reforma onde, seja por desleixo, preconceito ou tentativa de minimização de custos, não foi colocado piso táctil para os deficientes visuais e os cadeirantes foram SEGREGADOS a um setor específico, o que não condiz com o que está na legislação sobre acessibilidade. Depois de inaugurado, houve algumas evoluções e modificações, pois com as frequentes reclamações (inclusive através da justiça por parte dos PCDs), algumas coisas foram modificadas. O acesso foi garantido a todos os setores do estádio, mas muitas vezes através de “gambiarras”, como orientadores (ou seriam babás? Quem sabe seguranças?) Os acompanhantes foram privados de sentar ao lado dos cadeirantes, em muitos lugares os “andantes” passam na frente e obstruem a visão dos cadeirantes, o piso táctil foi instalado parcialmente, não há lugar no centro do estádio para que deficientes visuais possam “assistir” o jogo, sentir o clima do estádio e localizar a posição onde a bola está com o auxílio do rádio. É com este cenário que começo a minha história.

Meu nome é Edison Ferreira, sou sócio do Inter com cadeira locada, e no ano de 2015 levei minha filha GABRIELA (de 4 anos e cadeirante) pela primeira vez ao Beira-Rio para um jogo do Inter. A primeira vez da Gabriela no Beira-Rio foi durante as eleições presidenciais do clube no ano de 2014, mas a primeira vez que ela esteve na arquibancada para assistir um jogo foi no longínquo Inter x Avenida de Santa Cruz do Sul, durante o Gauchão/2015. Para um pai e torcedor, esse é um grande momento, a primeira vez que ele leva o seu filho no estádio do clube que ama, e este momento é ainda mais especial quando a criança já tem condições de entender tudo aquilo. Mas sou locatário de cadeira no andar superior, e aparentemente o novo estádio só tem dois elevadores para acessar o andar para pessoas com deficiência ou restrição nos membros inferiores. Pois bem, nesse primeiro jogo, um acompanhante assistiu o jogo todo ao meu lado, mesmo eu dizendo que não precisava, pois Gabriela estava comigo. A pessoa era muito solícita, mas fiquei meio constrangido.

Não lembro se levei ela em outro jogo do Gauchão, mas quando começou o Brasileirão, outros problemas apareceram. O jogo contra o São Paulo foi chamado JOGO DA ACESSIBILIDADE, mas nenhum cadeirante (sócio ou convidado) entrou com os jogadores em campo, e o foco da administração foi colocar o maior número possível de cadeirantes no setor “segregado” em vez de distribuí-los pelo estádio. Acabei subindo com ela para as cadeiras superiores, mas como estávamos em um péssimo lugar, em cima da torcida organizada, Gabriela acabou querendo ir embora no intervalo do jogo. Uma lição que eu, como pai, aprendi: não colocar ela próxima da torcida organizada, pois o barulho alto e constante acaba incomodando-a.

Entretanto, para mim o mais grave foi quando eu troquei de setor, depois da eliminação da Libertadores, com o objetivo de amenizar o custo da mensalidade. Meu novo setor fica próximo ao destinado a torcida adversária que, por sua vez, é o mesmo setor onde um dos únicos dois elevadores dá acesso. Não sei se foi por conta da crise político/financeira no poder executivo do estado do Rio Grande do Sul, ou se foi por uma decisão estratégica errada, mas no jogo contra a Chapecoense, em agosto, me proibiram de usar o elevador mais próximo ao meu setor, por medo de confronto. Mas como assim, será que os torcedores da Chapecoense iriam usar de violência com um pai e sua filha de 4 anos sozinhos? Ou seria incapacidade do clube e da Brigada Militar de me dar segurança para utilizar esse elevador? O fato é que, para não "rodar" com minha filha até o outro lado do estádio e voltar ao meu setor, eu acabei subindo empurrando a minha filha pela rampa de acesso mesmo, o que gerou um desgaste excessivo da minha parte, pois ela sozinha não seria capaz de acessar por ali.

Edison Ferreira
Edison Ferreira
"Acessibilidade é preservar a autonomia das pessoas e o direito constitucional de ir e vir"

Em todos estes casos que relatei, quem acabou se desgastando mais fui eu, ela até não se importou muito. Levei ela algumas outras vezes, mas essas que contei aqui foram as mais marcantes negativamente na questão acessibilidade. Esse texto é para lembrar ao clube e aos outros envolvidos que torcedores, sejam eles cadeirantes, deficientes visuais, ou sem nenhuma deficiência, gostariam de ter respeitada a sua autonomia e que ter acessibilidade é isso, é preservar a autonomia das pessoas e o direito constitucional de ir e vir. Não levei ela a outros jogos, mas apenas por causa da campanha inconstante do Inter. Espero que ela continue a querer me acompanhar no estádio, pois apesar dos problemas, nada me deixa mais feliz como torcedor e pai do que torcer ao lado dela no estádio do clube que amo e espero que ela continue amando.

Fonte: ESPN

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