Cícero Silva



O Fim do Beira-Rio que Conhecemos
Por Cícero Pereira da Silva
Um edifício, uma casa, uma estrutura física, têm um significado muito maior que os tijolos, ferros e cimento. A Torre Eiffel demorou mais de dois anos para ser construída. Ela fazia parte de uma das obras feitas especificamente para a Feira Mundial que ocorreria em Paris, em 1889. O maior objetivo de Gustave Eiffel, seu criador, era desbancar a Grande Pirâmide de Quéops, no Egito - até então a construção mais alta feita pelos homens, com 138 metros de altura e quase cinco mil anos de idade -, mesmo que de forma provisória, porque a ideia era que aquele monumento permanecesse em pé somente durante o período da Feira. De todo o vasto conjunto arquitetônico que foi feito para esse evento, a Torre, com seus 317 metros e 10 mil toneladas, foi a que mais sofreu críticas. Um dos jornais da época escreveu que o melhor da existência da Torre Eiffel era que todos sabiam que seria destruída. Pois bem, ela ficou até 1930 como a edificação mais alta do mundo. Hoje, é um dos cinco pontos turísticos mais visitados da Europa e, quando se pensa Paris, a primeira imagem que vem em nossa mente é justamente a Torre Eiffel.
Lembrei dessa história porque acho que o Estádio do Gigante da Beira-Rio, ou José Pinheiro Borda, é um exemplo completamente oposto ao anterior.
Quando se começou a construir um estádio deste tamanho, com números impressionantes, como o segundo maior estádio particular das Américas, que mudaria a geografia da cidade não só pela construção em si, mas pelo avanço nas águas do Guaíba com aterros (que até hoje são obras complicadíssimas), jamais alguém poderia imaginar que, em algum momento, esse templo sagrado desapareceria como o conhecemos, para ser erguido algo mais impressionante ainda, mais moderno, mais bonito.
Quero confessar aos amigos que, durante a partida final do Gauchão, naquele sufoco contra o segundo melhor time do estado, tive um tempo para me preocupar com isso. A imagem do estádio é muito forte nas minhas memórias afetivas, assim como na memória da maioria dos colorados. Ali dentro, passei por momentos maravilhosos. Com amigos da Fico, com a galera do Portão 2, com amigos de infância do meu condomínio, com meus filhos e minha esposa e, principalmente, de convivência com meu pai. Tenho uma memória impressionante no que diz respeito a futebol, mas uma coisa eu perdi na minha história e, com a morte do meu pai, temo não conseguir recuperar: não sei qual o primeiro jogo que assisti.
Nasci em 67, em Alegrete, e antes da inauguração do Gigante (em 06/04/69) já morava em Porto Alegre. Meupai me contava que um dos maiores orgulhos de sua vida era, mesmo sendo uma pessoa muito pobre que tentava a sorte na cidade grande com o curso de contador, concluído graças à sua atividade como pedreiro, ter conseguido ajudar, doando material de construção, nas diversas campanhas que foram feitas.
Minha aposta é que minha primeira vez no Estádio foi no ano de 1971, o tri gaúcho, naquela sequência em que alcançamos o octa. Foi neste ano que o Inter contratou Dom Elias Figueroa, o primeiro ídolo da minha geração. Figueroa gritando para os volantes, organizando a zaga, soberano nas bolas aéreas, com suas cotoveladas que ninguém enxergava, só os pobres atacantes, são imagens muito nítidas na minha memória. Há pouco tempo, estava no aeroporto Salgado Filho, esperando um voo, e passou ao meu lado o Figueroa. Era uma noite fria de inverno, e o capitão estava com um sobretudo preto que dava a impressão de que ele era ainda maior.
Segue elegante, caminha ereto e olha para as pessoas nos olhos, o que deveria dar calafrios nos atacantes. Confesso que gelei. Pensei em pedir um autógrafo, bater uma foto, dar um abraço, sei lá; mas concluí que, se fosse tentar fazer isso, começaria a chorar na frente do homem, pagando o maior mico da história do Salgado Filho. Me segurei e fiquei de longe, só observando os corajosos batendo fotos e pedindo autógrafos. Lembrei também de minha esposa que, ao encontrar em um shopping de Porto Alegre o maior ídolo dela, o Fernandão, atropelou metade das pessoas que estavam na escada rolante, bateu fotos e ainda me xingou por que eu consegui alcançá-la só 10 minutos depois, pois estava me desculpando com os atropelados da escada rolante.
Espero com ansiedade esse rito de passagem, e tento encarar a obra como modernização: não vai ser outro estádio. Mesmo olhando a maquete e achando aquilo mais parecido com um hotel seis estrelas em Dubai do que com o meu velho Gigante da Beira-Rio, que meu pai ajudou a construir.
Cicero Pereira da Silva 
*Texto enviado para o site é de inteira e exclusiva responsabilidade do autor


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